População xavante pratica "economia do cuidado" através da colheita de sementes nativas

Rede de Sementes do Xingu gera renda, sustentabilidade e alimentação saudável. A II Feira de Sementes e Saberes A’uwe Xavante, que aconteceu no penúltimo final de semana de outubro, mostra a importância da prática para a aldeia Ripá.

Texto por Natália Loyola de Macedo, fotos por Raíssa Azeredo para a Brigada NINJA Amazônia.

O norte do Mato Grosso e oeste do Pará foram regiões que sofreram com os elevados índices de desmatamento no final do século passado e início do presente. De acordo com o portal Valor Econômico, a derrubada sofrida, neste período, pode ser associada à abertura de 140 campos de futebol por hora. Com boa parte da mata derrubada e o rio Xingu afetado, algumas aldeias indígenas da região matogrossense viram na colheita de sementes nativas uma prática capaz de promover vida à população e a floresta.

Em 2013, a aldeia Ripá, localizada na Terra Indígena Pimentel Barbosa, no município de Canarana, Mato Grosso, se tornou membro da Rede de Sementes do Xingu. A geração de renda para os moradores da aldeia foi o motivo que levou os Xavantes a participarem da Rede. Mas, em menos de dez anos, além desse objetivo sucedido, os efeitos positivos também podem ser sentidos na alimentação e na natureza. 

A Rede de Sementes do Xingu é o resultado de articulação feita entre sociedade civil, órgãos públicos, universidades, organizações do terceiro setor e associações locais. Em 2007, a campanha Y Ikatu Xingu – língua indígena Kamayurá – que significa “Salve a Água Boa do Xingu,” deu início ao que viria ser um trabalho feito por setores da sociedade que, historicamente, não dialogam. A necessidade de adquirir sementes para plantio de restauração da região desencadeou o que pode ser chamado de “economia do cuidado”.

“A Rede se propõe a realizar um processo continuado de formação de coletores de sementes nas cabeceiras do rio Xingu, para disponibilizarem sementes da flora regional na quantidade e com a qualidade que o mercado demanda; formar uma plataforma de troca e comercialização de sementes; valorizar a floresta nativa e seus usos culturais diversos, gerar renda para agricultores familiares e comunidades indígenas e servir como um canal de comunicação e intercâmbio entre coletores de sementes, viveiros, proprietários rurais e outros interessados”,

explica Tatiane Ribeiro, jornalista da Associação Rede de Sementes do Xingu.

Nove aldeias Xavantes fazem parte da Rede de sementes, sendo oito delas localizadas na Terra Indígena Marãiwatsédé e uma na Terra Indígena Pimentel Barbosa – a Ripá.  Mais doze aldeias que se encontram no Território Indígena do Xingu.

 

A rede de Xingu foi institucionalizada em 2014 e é conhecida como a maior rede de sementes florestais nativas do Brasil gerando uma renda de R$ 4,2 milhões para as comunidades. A Rede já recuperou mais de cinco mil hectares de áreas degradadas. Para isso, 196 toneladas de sementes de mais de 220 espécies nativas foram utilizadas para o reflorestamento e comercialização.

O trabalho começa a partir da colheita de sementes que é feita, sobretudo, por mulheres indígenas. Ao fazer o caminho percorrido para a obtenção da espécie determinada, os integrantes acabam fazendo o reconhecimento do território indígena provando a relevância do ofício para a manutenção e proteção do território. As sementes colhidas serão utilizadas para o reflorestamento e/ou vendas. A Rede possui setor comercial que fica responsável para a realização do comércio. No início de cada ano, os clientes entram em contato para encomendar.

A Rede utiliza dos conhecimentos agroflorestais. A partir disso, ela semeia sementes florestais assim como, normalmente, fazem com as sementes agrícolas. Outro ponto que garante o sucesso do trabalho da Rede é a semeadura direta com muvuca, onde a base é o plantio de sementes misturadas. O conhecimento das mulheres indígenas é imprescindível para a realização do serviço, já que elas possuem relação íntima com a natureza.

“Cada espécie determina um tipo de coleta de semente. Pode ser cortada direto no pé, com auxílio de podão, com cordas ou coletadas no chão. Há as sementes ortodoxas e intermediárias. Algumas são aladas, ou seja, voam com o vento.”, relata Tatiane Ribeiro.

Historicamente, doenças trazidas pelo “homem branco” acabaram contribuindo para a dizimação da população indígena. Hoje, muitos originários estão em contato direto com produtos industrializados, sobretudo, os mais próximos dos processos de urbanização. Indígenas estão desencadeando doenças como hipertensão e diabetes.

Com o resgate da alimentação tradicional a partir da valorização das sementes nativas, a Ripá caminha na direção contrária a boa parte de outras aldeias indígenas, principalmente, as que foram beneficiadas por programas como a bolsa – família, salário maternidade e os trabalhadores da área da saúde e educação. Com a quebra nos hábitos tradicionais, uma parte expressiva da população indígena passa por um processo de transição que a aproxima de costumes capitalista, entre eles está o consumo de industrializados.

Para Alexandre Lemos, indigenista e diretor de projetos da Associação Indígena Ripá de Etnodesenvolvimento (AIRE), o perigo está na carência de informação por parte de alguns indígenas. Muitos não sabem os malefícios que alguns alimentos presentes no mercado podem causar. Ele diz que, normalmente, as pessoas optam por comprar o mais barato.

A jornalista Tatiane Ribeiro, confirmou que é possível admitir que a prática com sementes nativas impacte positivamente na saúde dos xavantes. Quando perguntada em relação aos dados, ela disse que o ISA não possui esse tipo de registro, mas que não há relatos de “Xavantes adultos com hipertensão, nem de crianças desnutridas”.

A rede de sementes é vista como exemplo para se pensar em economia sustentável capaz de unir conhecimento de povos tradicionais e ciência multidisciplinar. Medidas como estas são importantes para que o Brasil cumpra com o acordo de redução de emissões de gases-estufa que foi requerido no Acordo de Paris das Nações Unidas.

 II Feira de Sementes e Saberes A’uwe Xavante

Durante o segundo final de semana de outubro, aconteceu a II Feira de Sementes e Saberes A’uwe Xavante. Durantes os dias, a aldeia Ripá recebeu indígenas e não indígenas para compartilharem conhecimento, trocarem sementes e valorizarem a cultura indigenista. A programação da Feira contou com atividades culturais, warã, exposições e a tradicional corrida de toras de buriti.

A segunda edição procurou melhorar a formação profissional dos participantes da Rede, fortalecer a autonomia nos processos da cadeia produtiva de sementes e estabelecer uma organização social mais eficaz. Durantes todos os dias, a programação mostrou a importância do debate democrático para os xavantes através do warã – uma reunião que, diariamente, acontece na Aldeia para que as decisões possam ser feitas coletivamente.

O primeiro dia da Feira estava programado para o dia 18 de outubro, mas, as atividades tiveram início no dia seguinte devido o atraso dos indígenas convidados.  Os povos que estiveram presentes foram: Krahô (Aldeia Pedra Branca), Xerente (Aldeia Porteira Norodzawi) e Kanela (vindos do Maranhão). Os colaboradores não indígenas, pela facilidade de locomoção, puderam chegar no dia estabelecido para o início do evento.

Logo na parte da manhã, no primeiro dia do evento, as mulheres realizaram a expedição de coleta de sementes – Dzomori. A caminhada do retorno foi feita percorrendo a base da Serra do Roncador. A cena vista pelos presentes eram de mulheres retornando das caminhadas com cestas cheias de sementes e buritis sendo carregados nas costas ou acima das cabeças. A atividade inicial era imprescindível para a oficina de cestaria tradicional, que aconteceu no período da tarde, e para a troca de sementes, programada para o dia seguinte.

Os temas que ganharam destaque na Feira foram: territorialidade, cultura nativa, alimentos ancestrais, saúde indígena, sócio-biodiversidade e outros. A organização do evento se deu pelo povo Xavante com a colaboração de Alexandre Lemos.

“Quando a gente fala de saúde do povo, a gente fala de saúde de território também. Se essas espécies não existirem, vai alterar a execução do calendário cultural, a sustentabilidade, a nutrição… Então está tudo ligado. Para a cultura indígena, não existe essa fragmentação do conhecimento. É tudo uma unidade só. Eles tentam fazer parte disso integrando com harmonia. […] Assegurar a resistência do território, né? Assegurar que o território não vai ser explorado de maneira indevida, que eles vão conseguir manter essa união de espiritualidade, ecologia e cultura de forma simples e eficaz.”, explica Alexandre Lemos.

 A equipe Mídia Ninja acredita na importância de ouvir fontes mais próximas da realidade, mas as mulheres xavantes, que participam das expedições de colheitas, não possuem contato direto com as tecnologias e suas falas precisam ser traduzidas. A mídia Ninja tentou contato, mas, pelas dificuldades, não obteve entrevistas com as fontes primárias.

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