Edilena Krikati: "As pessoas não disfarçam mais o preconceito contra indígenas"

“Hoje é normal as pessoas dizerem que não gostam de índio”, diz Edilena Krikati, liderança dos povos Krikati sobre o aumento do discurso de ódio desde o início do governo de Jair Bolsonaro.

Entrevista por Raíssa Galvão, edição por Lucas Flávio e fotos por Felipe Beltrame para Brigada NINJA Amazônia.

À medida que o governo Bolsonaro se estabelece, os ataques do presidente e de sua equipe vão se alinhando para enfraquecer as lideranças indígenas e a pauta que os movimentos dos povos tradicionais têm difundido em suas mídias. Após terem sido mencionados em Assembleia Geral da ONU em setembro, e com o aumento das queimadas nos primeiros meses deste ano, a questão ambiental e as políticas para os povos indígenas têm sido pontuadas com mais ênfase nos discursos de Bolsonaro.

Entre os dias 27 e 29 de setembro ocorreu a XII Assembleia Ordinária da Coordenação das Organizações Indígenas Amazônia Brasileira (Coiab) na Aldeia Betânia, no Alto Solimões. Com o tema Amazônia: pela garantia e proteção dos nossos territórios, a convocação da Assembleia se propôs a discutir entre as lideranças de movimentos indígenas “como se opor da melhor maneira a esses ataques em relação à Amazônia e aos povos indígenas”, conta Edilena Krikati, liderança das mulheres Krikati e conselheira da Coiab. 

Durante a Assembleia, Edilena se encontrou com a “Brigada Amazônia” da Mídia NINJA e nos contou como a comunidade e os movimentos indígenas têm respondido aos ataques do governo. A “Brigada Amazônia” percorreu diversos territórios amazônicos atingidos pelo desmatamento ilegal e por grandes incêndios. 

O violento resultado dos avanços do discurso de Bolsonaro em relação aos povos indígenas faz parte de um fenômeno social que reside na mediação entre discursos e práticas, tanto do governo quanto de setores mais conservadores de toda sociedade. “Temos percebido mais claramente esse preconceito que antes era escondido, antes as pessoas disfarçavam bem. Hoje não. É normal as pessoas dizerem que não gostam de índio, então tem sido bem tenso esses meses de governo”, diz Edilena.

Ela também aponta que a mudança de pasta da Fundação Nacional do Índio (Funai) e as mudanças administrativas na Secretaria Nacional de Saúde Indígena (Sesai) enfraqueceram os próprios órgãos, que eram mais atuantes, e como consequência das ações do atual governo, o resultado é “esse discurso mesmo do ódio. O que temos hoje nas terras indígenas é o retorno de várias pessoas que haviam saído dessas terras devido à desocupação [legal, realizada pelo Ministério Público]. No meu caso, por exemplo, minha terra é demarcada e homologada, mas ainda tinha um pessoal de má fé dentro da terra, e tinha sido preciso fazer a desintrusão. Depois dos discursos do presidente, todo esse pessoal voltou… se sentiram empoderados e voltaram para dentro da terra”.

“Com as mudanças nos dois órgãos principais que tratam da política e da questão indígena a gente percebe que o objetivo é justamente enfraquecer esses órgãos”, denuncia Edilena.

 

E você tem sentido isso na pele, esse ódio aos indígenas? Os madeireiros, por exemplo, estão mais valentes, sem medos e fazendo o que querem e o que sempre quiseram agora?

Edilena: Sim, claro, sentimo isso. Por exemplo, as pessoas hoje estão mais fortalecidas. Se o presidente Jair Bolsonaro tem esse discurso, tem essa postura, essas atitudes, as pessoas antes ficavam meio escondidas… Hoje não! Se sentem fortes para dizerem o que pensam, o que sentem. A própria questão dos armamentos, que é muito preocupante principalmente em terras indígenas que ainda estão em processo de demarcação, acho que agora vai ficar muito mais difícil… Então é muito preocupante, os conflitos começam a se acirrar.

E vocês ainda tem um projeto dos Guardiões da Floresta. São os próprios indígenas colocando seus próprios corpos em defesa do território? Como funciona e como se organizam para fazer essa proteção do território?

Edilena: A gestão do território e dos recursos naturais nosso povo sempre fez, e muito bem. É por isso que ainda temos, até hoje, né? E o trabalho deles [dos Guardiões] é importante nesse sentido de ajudar a proteger e conservar. Tem alguns grupos que fazem viveiros, outros ajudam mesmo na questão das roças, na questão da coleta dos frutos… Enfim, tem todo um trabalho e que infelizmente as pessoas não reconhecem. Mas é um trabalho mesmo de proteção e conservação. Então tem essa história dos Guardiões mesmo, um grupo formado para fazer isso.

E esse trabalho deveria ser feito pelo governo, né?

Edilena: Pois é. Uma coisa que o Estado brasileiro peca é nisso. Nós temos um decreto da PNGATI [Política Nacional de Gestão Ambiental e territorial em Terras Indígenas], de 2012. E não conseguimos implementar isso dentro das terras indígenas, porque nem o município, nem o Estado, nem o próprio sistema federal consegue colocar isso na prática de fato. Mas existe um decreto, e a gente faz esse trabalho que, na verdade, era para os órgãos do governo estarem fazendo.

E aí, essa questão dos agentes ambientais, os Guardiões da Floresta, é um trabalho que tem crescido, tem sido pouco valorizado pelo governo, e não tem reconhecimento, mas as pessoas colocam a vida em risco…

Qual é a relação dos povos indígenas com seus territórios, com as terras em que vivem?

Edilena: É uma relação bem íntima. Você não consegue, na sua cabeça, separar as coisas: o ser humano de um lado, o meio ambiente do outro. Não! É todo um conjunto, e você é apenas uma peça que está ali. É como uma relação de mãe e filho. Quem é mãe sabe o quanto você sente aquele ser dentro de você, o quanto ele está ali e você está protegendo. Então a relação dos povos indígenas, nossa concepção, nosso sentimento envolve toda uma relação espiritual, uma relação de como você está naquele ambiente, de como utilizar aquele ambiente, e você tem aquilo ali para viver e ele mesmo está ao seu redor. É uma ligação bem forte, acho que sobrenatural mesmo.

O tema da Marcha das Mulheres Indígenas esse ano foi “Território: nosso corpo, nosso espírito”. Como foi a organização dessa Marcha das Mulheres? De onde surgiu a ideia e como vocês escolheram esse tema?

Edilena: Alguns anos atrás já vinhamos discutindo, conversando, e nos inspiramos na Marcha das Margaridas. Teve também a Marcha das Mulheres negras. E estávamos dialogando sobre isso, discutimos e chegamos num consenso no ATL [Acampamento Terra Livre]. Lá conseguimos fazer uma plenária de mulheres e discutir como seria. Depois escolhemos o tema e começamos a fazer as articulações nos estados, nas comunidades, nas aldeias, nas cidades, para começarmos a organizar para vir para essa Marcha, a I Marcha das Mulheres Indígenas. Fizemos uma comissão de organização, e é claro que tivemos parceiros, simpatizantes, amigos, muita gente nessa causa que nos apoiou, que nos ajudou. E viemos fortes, né? Foi uma Marcha bem significativa, um número bem expressivo de mulheres, porque é muito mais complicado tirar uma mulher de uma aldeia. Para o homem não! Para as mulheres tem toda uma situação, né…

E aí você pode observar que as mulheres, onde vão, levam filhos homens. Você não vê o pai carregar o filho para uma reunião… as mulheres ficam com o bebê na tipoia, estão puxando… Então é bem mais complexo esse mundo feminino, esse mundo de mulher, mas a gente conseguiu fazer e realizar uma boa Marcha.

Você comentou sobre a construção das representações indígenas e sobre a representatividade das mulheres. A Ysani, por ser mulher, está usando isso a seu favor? Como as mulheres têm reagido à tentativas de liderança dela?

Você tem o respeito dos homens quando você se empodera. E nossas lideranças todas são assim, e não é machismo…. nós mulheres indígenas não nos sentimos representadas por ela.

Olha os absurdos que ela fala! As coisas que ela solta… olha quem ela apoia! Um cara que se declara contra os povos indígenas, que só fala mal de nós, que só cria situações que trazem mais problemas. Como é que vamos apoiar uma pessoa dessa? Como vamos tirar uma foto do lado dele? Então é bem triste, por ela ser indígena e ser mulher… e sabemos que é uma estratégia mesmo, antiga, essa de fazer o divisionismo, de tentar fragmentar. E também é legitimar o processo deles. Eles precisam de uma mulher, de uma índia, e acharam ela, por acaso… enfim, foi isso. Mas ela não nos representa, de forma alguma! Nem um pouco.

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